17 de ago de 2014

Regno, Regnavi, Sum sine regno, Regnabo

Ajoelhou-se no meio da avenida, sem se importar com os carros. Não esboçou reação quando a meia-calça desfiou no asfalto, quando os joelhos rasgaram e o sangue brilhou no piche. Nada mais a preocupava, ela não se pertencia mais. Fechou os olhos e fez uma prece, mesmo sem saber rezar.

Os carros desviavam, como se ao redor dela um domo invisível surgisse. Era a entrega. Ali, naquele cruzamento, ela deixou seu coração, como oferenda aos deuses mortos, num pano branco de cetim. Uma oferenda à um deus morto é um pedido de morte também. Não metafórica, muito menos literal. É a morte do invisível, da essência, daquilo que não tem nome.

As lágrimas queimaram-lhe o rosto e o peito, que agora exibia um buraco incômodo de se ver. Ela era inteira cicatrizes, rascunho do que havia sido um dia.

Tirou uma carta de tarot do bolso: rota fortunae. O rei está morto.

Ela nunca mais será a mesma.

20 de jun de 2014

Silêncio

Abri os olhos e desejei com tanta força que tudo aquilo fosse só um pesadelo que esqueci de respirar. Sufoquei de desejo, e os pulmões se encheram de realidade. Mal dava pra ouvir meu coração batendo e então eu me dei conta de que era só eu.

Estranhei o gosto salgado no café. Eram lágrimas. Meu peito estava encharcado, queimando. O cigarro sequer tinha gosto e a comida me dava náuseas. Eu só queria deitar no chão frio e esperar que tudo congelasse por dentro de novo.

Mas o teu amor era quente demais, e eu deixei queimar. Deixei você ocupar todos os espaços, construí um lar pra você dentro de mim. Você sequer veio buscar as chaves. O eco é ensurdecedor, e eu nunca mais vou cantar.

Eu devia ter fugido quando as minhas pernas me obedeciam, quando eu era forte o bastante pra isso, quando eu não havia te dado meu coração.

Eu fiquei. Quem fugiu foi você.

21 de mai de 2014

Magma

Acendi um cigarro, Ascendi. Transmutei. 

Era rocha, e o calor era tanto que virou lava, escorreu pelo meu peito. Parecia sangue, incandescente, pulsante. 
Escorreu e transfigurou tudo pelo caminho, desfez o que era dado como certo, mudou a paisagem.

Fez uma legião se mudar, ocupou espaços. Era tão bonito de se ver que me fez esquecer que era tóxico. Destruiu tudo ao redor.

No deserto que se fez, surgiu o novo. O solo se fez fértil, e o que se planta, colhe.

A promessa da abundância faz esquecer os perigos. Fica-se.

Fico.

21 de abr de 2014

Entre as refeições.

Não era sequer hora do almoço e eu já havia cometido ao menos três grandes erros. Eu torço pelo dia em que eu faça as coisas da maneira certa, ou menos dolorida. Mas eu preciso do caminho que tenha gosto de sangue na boca, que é pra eu não esquecer que no meio disso tudo, eu tô viva.

Se não é o caminho de gosto férreo, é o caminho com gosto salino, escorrendo pelo rosto, queimando. Não existe jeito de fácil de fazer as coisas, não pra gente como eu. Só mais uma cicatriz, é quase vício. Porque eu não posso esquecer de como isso tudo foi. Não que adiante alguma coisa, ou eu aprenda alguma lição. Eu vou e faço tudo de novo e de novo e de novo. Eu repito os erros e grito no banho, sem som. Que raiva. Que inferno.

O peso das consequências me fazem curvar, e eu beijo o chão. Eu gosto do cheiro do asfalto, porque é cheiro de casa. Ao menos é dor, e não vazio.

Se a preguiça deixar, antes da janta eu levanto.

24 de fev de 2014

PVA

Peguei o tubo de cola branca no velho estojo. Sequer faço ideia de quanto tempo havia passado desde a última vez que mexi nesse estojo, nessa cola, nessas coisas. Tudo se tornara desbotado.

Abri o tubo e deixei o líquido branco e grosso escorrer pelas minhas mãos. O cheiro forte, plástico. A cola deslizava viscosa, fria, familiar. Fiquei observando aquela grossa e maleável camada secar, transmutar-se do branco para o transparente. Muitas horas se passaram até aquele momento. Fiquei imóvel, deixei que a cola tomasse a minha forma, a minha cor. Era parte de mim, minha armadura despolida.

Foi então que eu deixei de pertencer. Sem ao menos contar até três, arranquei aquela camada diáfana e observei as marcas de meus poros dela. Simulacro de pele, de proteção. Feito cobra, cresci.

Me livrei da pele antiga e me observei em carne viva. Me refiz no frágil, desconheci parte de mim.

Meus pedaços não me pertencem.

30 de jan de 2014

Estes não são meus sapatos.

Eu não quis te acordar quando, no meio da noite, entendi que aqui não era mais meu lugar. Você dormia tão calma, um suspiro pesado e a boca entreaberta. Eu invejei um pouco a sua tranquilidade, eu invejei você saber o que eu não sei. Você tem sorte, eu acho.

Não é como se eu estivesse no fundo do poço, porque lá eu ao menos tocaria os pés no chão e tomaria impulso para subir. Eu estou no meio, suspenso. É um esforço tremendo tentar chegar até a borda, e talvez seja mortal tentar alcançar o fundo. É repleto do silêncio de palavras desconexas que não me fazem sentido, o silêncio de uma multidão que eu preferiria ignorar. A mesma multidão que só me empurra, que vira correnteza nesse oceano, que define minha rota. E eu não gosto dessa sensação, entende? Eu preciso ter o mínimo de controle sobre as coisas, sobre mim mesmo.

Eu não quis te acordar quando eu acordei. Você parecia confortável demais nessa vida, nessa cama. E essa não é a minha vida, ou a minha cama. Ou era, mas eu não me sinto confortável em mais nada disso. E esse talvez não seja eu.

Fiz as malas em silêncio.

E não sei para onde ir.

19 de nov de 2013

Ordinary people.

Esse mundo é um lugar bem hostil. Assim do exato jeito que ele é. Porque esse lugar é a promessa de um holocausto. É a possibilidade de um apocalipse zumbi. Essa merda de planeta tá sempre desviando de algum meteoro, remendando a camada de ozônio,  salvando o Pardalzinho-de-peito-marrom da Mongólia da completa extinção. Se não tá fácil pro Pardalzinho-de-peito-marrom da Mongólia, imagine pra mim. Porque não existe uma ONG em meu nome, ou em seu nome. A não ser que vc seja uma pessoa deveras amada com uma doença rara. Nada contra essa gente que é amada e celebrada porque está doente, só acho deveras escroto com todas as outras também doentes. Olha, vocês não são menos amados não, viu? É que nem todo mundo nasceu pra Pardalzinho-de-peito-marrom da Mongólia. Lugar ridículo esse aqui.

E mesmo sendo essa coisa horrível que eu e você sabemos, eu ainda quero estar por aqui. Eu quero segurar a tua mão enquanto aguardamos com alguma ansiedade o cometa que vai passar. E pensarmos ao mesmo tempo que se ele desviar da rota e nos atingir em cheio, tá tudo bem, porque a tua mão está  na minha e meu coração está no teu.

É um mundo hostil, não somos especiais. Mas nos temos.

Fique à vontade.

21 de out de 2013

Não é nada.

Sentei na beirada da cama, respirei fundo e contei até três. Com um pouco de esforço e alguma habilidade, consegui rasgar a carne, quebrar as costelas necessárias e abrir caminho até meu coração. Parei por uns segundos, sentindo-o ainda pulsar entre os meus dedos, sentindo o sangue escorrer. Contei novamente até três, mas no dois já havia puxado-o pra fora. Melhor assim, de uma vez. Então veio o alívio, seguido do vazio. Tudo o que foi e não é mais.

Não sei quanto tempo passei apenas fitando-o. Quando dei por mim, havia uma poça de sangue na cama e um coração desbotado e quieto em minhas mãos. Quisera que ele sempre fosse assim, calmo. Olhei com carinho para todas aquelas cicatrizes, beijei cada uma delas, sussurrei minhas desculpas. "Vai ficar tudo bem" - disse a ele, quase o embalando em meus braços. Dorme, meu bem. Eu velo teu sono.


Depois de algum tempo me dei conta do que precisava ser feito. Coloquei meu coração entre minhas pernas , repousando no lençol, e com o estilete fiz uma fenda, tão profunda quanto foi necessário. Elas estavam lá, eu sempre soube. Dizem que temos borboletas no estômago, mas não eu. O que tenho são mariposas no coração. Tirei então uma por uma, com tamanha suavidade, que meus dedos mal as tocavam. Elas batiam as asas, delicadas, e sumiam pela janela. Era recíproco o sentimento: elas queriam se livrar de mim na mesma proporção que eu queria me livrar delas. Todas fugiram, menos uma. Olhei suas asas com atenção e vi meu rosto refletido ali. Ela era como eu. E contra a minha vontade, ela voltou para dentro do meu coração. 

Resignada, costurei a fenda com delicadeza, ciente de que havia feito outra cicatriz. As cicatrizes me tornam mais forte, mas menos flexível. Quase caricatura do que um dia fui. Recoloco o coração dentro do peito, ajeito as costelas, costuro a carne. É pesado, mas eu preciso dele para me saber viva. Bate, meu bem. Eu prometo tentar cuidar melhor de ti. Eu prometo.

Hora de limpar a bagunça.

................................................................................................

Sinto você batendo asas sozinha ai dentro. Talvez aquela bagunça toda tenha sido em vão, talvez você fizesse menos barulho quando havia tantas outras ai. Mas não consigo me livrar daquilo que é tão igual, que beira o familiar. É confortável e quase narciso. É egoísta. Pode ser dos estragos, o maior, porque me entende e me conhece, melhor que ninguém. 

Me fascinei ao ver meu próprio rosto em tuas asas, quando na verdade eu devia tê-las arrancado. Tarde demais. 


                               


                                       

7 de out de 2013

Cereja do bolo.

Existem três tipos de pessoas no mundo:
-as que comem primeiro a mistura e depois a comida;
-as que comem a mistura e a comida ao mesmo tempo;
-as que deixam a mistura (que é claramente a melhor parte da comida) pro final.

Eu sou o terceiro tipo de pessoa. 

Se eu e você tivéssemos 7 anos agora, e nos encontrássemos numa festinha, você me veria com um pratinho de doces nas mãos. E eles seriam comidos na seguinte ordem: brigadeiro, beijinho, cajuzinho. Porque brigadeiro mamãe faz em casa, beijinho já é mais raro. Mas cajuzinho, ah. Cajuzinho só em festa. E você também me veria separando cobertura e recheio do bolo, desmembrando calmamente o pedaço de doce, com alguma precisão. E então me observaria comendo a massa e guardando todo aquele recheio e cobertura pro final. Quando então ambos também não existissem mais no prato, seria hora da cereja. Porque assim como o cajuzinho, a gente só come cereja em bolo de festa. É um evento único. Merece ter um momento só dele, e não se perder naquela maçaroca de glacê e massa de bolo.Veja bem, eu desconfiguro tudo, para então saborear as coisas do meu jeito. Porque o que é de fato bom, eu quero por inteiro, da forma mais intensa possível.

Eu cresci fazendo isso com a comida, não me espantei quando percebi que fazia isso com tudo. Minha vida, esse amontoado de peças desconectadas, onde eu vou fazendo uso e me contentando com o que menos me agrada para deixar a melhor parte pro final. O que eu não sabia é que, na vida adulta, as coisas são diferentes. Pessoas não são bolos e não esperam passivamente pela hora delas. Pessoas se vão. Sentimentos também.

O tempo corre diferente na vida adulta. Deixar um sentimento bom pro final pode significar comer comida azeda, passada, estragada. Pode significar não haver mais nada ali. Mas havia um bolo, eu sei.

A mania de deixar tudo o que é bom demais pro final me fez perder a hora do parabéns.

Me restou apenas observar assoprarem as velinhas, de longe.

Nós não temos mais 7 anos.